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Nheengatu, o álbum de rock nacional mais importante dos últimos anos

Primeira coisa que tenho pra falar: isso não é uma resenha. Eu não sou jornalista. Apenas gosto de ouvir música. Ouvir no sentido antigo da palavra. Não acho que o Nheengatu é o melhor álbum do rock nacional da história, mas é o mais importante dos anos 2000 pra cá.

Final da ditadura militar, uma puta inflação nos anos 90, Plano Collor e muitos outros motivos faziam com que o rock nacional fosse facilmente transgressor nos anos 80 e 90. Depois de duas décadas que tiveram Legião Urbana, Ira!, Chico Science, Sepultura, Planet Hemp, entre outra penca de bandas, o que poderia ser original e agressivo no mainstream?

Pois bem. Os anos 2000 que foram do hardcore melódico underground ao emocore, que de transgressores não tem nada. O rock nacional já não choca mais. Quem choca são as Putinhas Aborteiras, o Emicida falando de reforma agrária em um dos principais prêmios de TV, isso é atitude! Isso é botar pra fuder!

Os rockeiros da cena mainstream atual estão totalmente por fora, caretas e desinformados.

Enquanto isso o Brasil está um caos. Não preciso citar exemplos. As manifestações do ano passado nos mostraram isso. Nesse meio tempo não ouvi nenhuma banda de rock nacional falar sobre esse momento. Reacionários como Lobão e Roger não valem. Esses aí, como muitos, são contra a corrupção do PT, os alto impostos, etc… mas e quem não é? Se perguntarem pro Maluf ele também vai dizer que é contra a corrupção, assim como todo mundo é contra a violência. Mas por que o rock não fala de desigualdade social, violência policial, homofobia, racismo, machismo e outros ismos? Era justamente essa a pergunta que eu me fiz desde Junho de 2013, até ver esse esse post na página oficial do Titãs.

Um retrato instantâneo do Brasil

Quando vi o post que citei, por vários motivos, criei bastante expectativa pelo Nheengatu. Rafael Ramos é um dos produtores que mais curto, Titãs é uma das minhas bandas favoritas e o enunciado prometia um disco que falasse do Brasil atual. E cumpriu. Falou. Berrou. Chutou o cu dessa sombra reacionária que rondava o rock nacional. Que alívio!

O disco já começa com “Fardado”, que tem uns quatro acordes e uma letra simples que foi inspirada em um cartaz dessas manifestações que aconteceram no último ano, que dizia “você também é explorado, Fardado!”. A música é tão foda quando qualquer uma do Cabeça Dinossauro, assim como o petardo “Pedofilia”. “Senhor” é praticamente uma continuação de “Igreja”. As duas estão pro Cabeça como “Terra à vista” e “Não pode” estão para “Õ Blesq Blom”.

Além das mais diretas, Nheengatu deu uma voz rockeira para as minorias. “Mensageiro da desgraça” vem como se fosse uma canção cantada por um índio, onde ele fala sobre toda essa falta de sentimento que a sociedade brasileira está perdendo (já teve?) com quem é diferente, seja índio, morador de rua ou sem teto. Falando em falta de sentimento, quando eu estava fazendo a leitura e audição das músicas, li o título “Flores pra ela” logo pensei: ué, uma balada?. Não. O som fala sobre o machismo e violência contra a mulher.

“República das bananas” é uma sátira do Brasil. Escutei esse som e logo lembrei do vídeo mais confuso de 2013, do Batman do Leblon.

A musicalidade do Nheengatu é foda. Ele é bastante influenciado pela MPB da década de 70. É só ouvir e notar. “Cadáver sobre cadáver”, que é uma parceria da banda com o ex-titã Arnaldo Antunes, tem uma levada indígena que só vi os Titãs fazerem até hoje, como lá no Cabeça Dinossauro.

“Baião de dois” é uma mescla de vários sons, como “O mundo é um moinho” do Cartola.

Baião de dois

Tenho certeza que existem muitas bandas fazendo músicas tão massa quanto as do Nheengatu. Toda quinta-feira no Eu Escuto tem um ou mais álbuns de rock nacional. Mas o que eu quero mostrar é o quão importante é uma banda do mainstream ter um posicionamento como o Titãs teve nesse álbum. Sacou?

Você pode ouvir o álbum completo no YouTube, iTunes e outros inúmeros links na www.